terça-feira, 24 de março de 2015

As Ideologias Dominantes de Cada Época

Escrito pelo Diretor do Grupo Projetar Roberto Guimarães.

Karl Marx afirmava que, no processo de ascensão de determinada classe ao poder, era necessário que essa classe defendesse valores que representassem, mesmo que apenas aparentemente, o interesse da maior parte da sociedade. Para atingir determinado fim, tais ideias deveriam conter conteúdos universais, sendo, portanto, disseminadas por meio de conteúdos genéricos, que não apresentassem as contradições ou particularidades de cada classe, como, por exemplo, aqueles que representam a ideologia burguesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Além disso, precisariam ser vistas como as únicas ideias razoáveis.
A nova classe dominante, agora não necessariamente representando efetivamente os interesses de outras parcelas da população às quais se aliou para a ascensão, precisa agora mascarar, para ela inclusive, as contradições entre os valores que sustentou e a realidade da dominação que exerce.
Uma vez que é agora dominante, detém os meios de produção da vida material, e, consequentemente, os meios de produção da vida espiritual. É ela própria que controla a elaboração e a divulgação das ideias predominantes, que tratarão de encobrir, para a população em geral, os elementos sobre os quais se apoia e que lhe garantem a condição de dominante. Essa produção da ideologia se dá quando a classe dominante atinge o estado de divisão do trabalho no qual a produção material se desprende da produção intelectual e espiritual, e, dessa forma, aquilo que se pensa pode se ver também desvinculado daquilo que realmente acontece, criando uma ilusão. Portanto, enquanto uma parte trabalha, outra pensa, destacando-se apenas, dentre os pensadores, aqueles que fomentam valores coincidentes com os interesses dessa classe.
Podemos perceber, por exemplo, que as informações emitidas pela TV não são imparciais. Se verificarmos quem são os detentores das principais emissoras de televisão poderemos compreender como essa imparcialidade frequentemente atende os interesses do poder vigente e perpetua os valores dominantes.
Essa “indústria cultural” age com o intuito de refletir tais conceitos em todos os momentos de vida do indivíduo, incluindo o ócio, como forma de tornar suportável a realidade que terá, inevitavelmente, que enfrentar no dia seguinte. Uma perfeita “lavagem cerebral” que somente pode ser combatida pelo questionamento, que por sua vez requer um mínimo de capacidade intelectual e conhecimento, porém este último, por sua, vez tende a divergir o foco da investigação das contradições, uma vez que é em sua maioria produto dessa mesma indústria (As escolas, por exemplo, são instituições "nascidas" e mantidas por esse mesmo poder, e, portanto, não poderiam servir a outros propósitos que não aos da ideologia dominante).
Trabalhei por muitos anos com pesquisa de opinião, principalmente referente às intenções de voto da população, e isso me permitiu percorrer 16 estados do nosso país. O mais chocante nessa caminhada, em minha opinião, foi o fato de que, mesmo em estados de miséria com os quais nunca pude sonhar – as regiões pobres que conhecia no estado de São Paulo, por exemplo, não se comparavam, em termos de miséria, com o que vi no interior do Amapá, do Amazonas e etc. – as pessoas acreditavam – e/ou temiam – nos poderes vigentes, que os mantinham naquelas condições. Por exemplo, no Amazonas, quando interrogadas sobre quais eram as intenções de voto, respondiam com frequência espantosa que votariam no candidato da situação, que estava no poder havia quase duas décadas, entre governo do estado e prefeitura. A justificativa era, na maior parte das vezes: “ele rouba, mas faz”. Tamanha era a força das ideias dominantes que o ato de roubar do qual o indivíduo está sendo vítima não é visto como imoral, ou, se é visto, é contraposto diretamente por conceitos que o justifiquem e possibilitem sua aceitação. Parecia-me que isso também se dava pela limitação das perspectivas daquelas pessoas àquela na qual o poder vigente obtém melhores ganhos e se mantém com maior facilidade. Assim, não se davam conta da miséria em que viviam, ou, quando a percebiam, não se acreditavam capazes de fazer algo diferente daquilo que lhes era “vendido” como solução e que os mergulharia ainda mais nas engrenagens do sistema.
 

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