quarta-feira, 16 de maio de 2018

The Good Neighbor - O Bom Vizinho: o preconceito como deturpador do juízo

Artigo escrito pela Psicóloga Clínica Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.


AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS.

Dois jovens amigos decidem realizar testes com o vizinho de um deles. Inserem em sua casa uma série de artefatos que podem ser controlados à distância e que, além de vigiar, promovem alterações no funcionamento de portas, luzes, entre outros. A ideia é verificar como o comportamento do vizinho é alterado pela variação de pequenos aspectos de sua rotina que os garotos passariam a controlar e que poderiam fazê-lo pensar que sua casa estava mal-assombrada. Comandam o fechamento brusco das portas, ligam subitamente o rádio, oscilam a iluminação da casa e checam as reações de sua “vítima”.
Com a tocaia, percebem comportamentos estranhos do senhor que mal conhecem, apesar deste morar na casa do outro lado da rua. O vizinho vive sozinho e passa boa parte do tempo num sótão, localizado no subsolo de sua casa, que fica trancado com cadeado. Depois de algumas respostas violentas às provocações dos jovens – como a destruição da porta que batia incessantemente -, eles começam a conceber ideias sobre os porquês daquela agressividade e isolamento: que segredos escondia em seu universo particular?

Mesmo sabendo que estão cometendo crimes, invadem novamente a residência que têm espreitado para investigar e tentar obter respostas para suas inquietações. Neste momento, o vizinho já havia se tornado um assassino, segundo a fértil imaginação juvenil. As incursões terminam em desastre. A ideia que ganhara força ao longo do experimento, a de um vizinho maldoso e que estaria escondendo evidências de algum crime em seu porão, desfaz-se numa triste história de depressão por causa do luto relacionado à morte da esposa por doença.
O filme mostra como nossa mente funciona na apreensão da realidade, funcionamento que facilmente leva à elaboração de pré-conceitos, frequentemente deturpados e altamente nocivos ao convívio social. Tendemos a organizar os dados que captamos sobre as coisas por meio de classificações. Estabelecemos categorias e incluímos nesta ou naquela o objeto que acreditamos conhecer. Sem o registro sistemático dos fatos e objetos da experiência, não conseguiríamos nos adaptar bem ao mundo que nos cerca. Por exemplo, classificar um líquido como venenoso pode facilitar a manutenção da vida ao predispor o organismo a se afastar ou a interagir cautelosamente com o objeto.
O problema está no fato de que nossa experiência com o objeto não abarca tudo o que se pode conhecer dele. Assim, o registro que fazemos de algo é sempre incompleto. O próprio conhecimento científico é apenas um recorte do todo estabelecido pelo cientista e que aguarda a próxima descoberta para deixar de ser “a Verdade”.
Além disso, a conceituação depende de como somos afetados pela experiência e de nossa compreensão prévia do mundo, ou seja, está ligada tanto às respostas sensoriais e emocionais vinculadas à interação com o objeto quanto ao conjunto de características que compõem nossa personalidade, formada a partir de elementos biológicos e moldada de acordo com as dinâmicas e valorizações sociais nas quais o indivíduo está inserido. Daí seu caráter parcial e subjetivo.
A classificação por si só não é um processo ruim, pelo contrário. O prejuízo está em tomar como absoluta qualquer noção que adquirimos sobre as coisas. Ao classificar, nosso cérebro tende a generalizar o conceito para outros objetos que possam ser enquadrados em categorias semelhantes. É o caso da “glória refletida” ou da “culpa por associação”.
Por exemplo: um indivíduo que não conheço, mas que é amigo de um amigo meu, tem mais chances de ser qualificado como legal se meu amigo é legal. Outro sujeito pertencente a uma família com quem tenho conflitos será facilmente visto com “maus olhos” apenas por carregar o mesmo sobrenome de seus familiares. Outros exemplos de erros que decorrem dessas generalizações – que realizamos automaticamente – são, por exemplo, a ideia de que todo indivíduo tatuado é vagabundo ou criminoso, ou de que toda mulher que usa roupas curtas e sensuais é promíscua, ou de que todo homem que chora e demonstra sentimentos é homo afetivo, e assim por diante.
Tudo aquilo que é diferente, cujas características excedem nosso universo conceitual, tende a perturbar por nos tirar a possibilidade de prever e ou controlar seus movimentos. Para ter paz, muitos de nós acabam se afastando das ameaçadoras diferenças, o que reduz ainda mais as possibilidades de compreensão daquilo que excede nossos conhecimentos. Como nosso juízo parte daquilo que nos é familiar e que não abarca a nova realidade, está fadado ao erro.
A saída é desconfiar das definições que temos e fazemos do diferente, além de criar possibilidades para a aproximação, como o compartilhamento de objetivos e ações. Pode parecer ameaçador, mas é a fórmula para romper as limitações impostas pelo apego aos conceitos que nos são familiares e reduzir o medo social. Enfim, não se trata somente de tolerância, mas de libertação.    

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